Da autoconstrução à corrupção: o que os desabamentos no Brasil têm a nos dizer

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demolição

Certamente você está acompanhando o número cada vez mais frequente de estruturas inteiras simplesmente desmoronando em questão de segundos, principalmente edifícios.

O último incidente, ocorrido no início desse mês de junho, foi o desabamento de um prédio de quatro andares localizado em Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio de Janeiro, e tirou a vida de duas pessoas.

Mas por que isso está acontecendo? E por que com tanta frequência?

Podemos dizer que não há uma causa apenas, mas sim um conjunto de fatores que levam ao extremo evento da queda de um edifício, problemas não só técnicos, mas também sociais.  

Autoconstrução

O presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ), em entrevista à rede de notícias CNN, afirmou que a instituição registra por ano, em média, 3,5 mil construções irregulares só no Rio de Janeiro.

Nessas irregularidades entram construções sem alvará e em áreas de preservação ambiental, por exemplo.  No entanto, a grande maioria das as obras consideradas irregulares são aquelas erguidas sem nenhum profissional habilitado, e aí temos um problema de característica histórica no Brasil, o da autoconstrução.

A autoconstrução é comum nas regiões de periferia do Brasil, e, muitas vezes, é a solução encontrada por quem deseja ter sua casa própria e não tem dinheiro para contratar mão de obra ou não pode lidar com dívidas de longo prazo. Essa maneira “caseira” de fazer/reformar foi surgindo e se intensificando desde o início da industrialização, onde muitos trabalhadores ocuparam as grandes cidades e criaram verdadeiras vilas de construções irregulares.

Mas o perigo de levantar uma estrutura ou mesmo modificá-la sem o apoio técnico especializado pode acarretar não só problemas na construção, mas também risco de vida para os moradores. Só no Rio de Janeiro, foram 4 prédios que desmoronaram só nos últimos 4 anos.

Em 2015, um grande levantamento foi encomendado ao Datafolha pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU) a respeito da situação das moradias brasileiras. Dos entrevistados pela pesquisa, mais da metade disseram que já fizeram reformas ou construções por sua própria conta e, destes, 85% fizeram o serviço sem nenhuma orientação técnica adequada.  

Em entrevista ao programa de rádio da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), o arquiteto e professor Universidade Federal Fluminense, Pedro da Luz, diz que uma “parcela ínfima” da população brasileira tem acesso ao mercado imobiliário formal, e que grande parte das habitações inadequadas do Brasil são produzidas pela autoconstrução.

A edifício que desmoronou no início do mês foi construído em área de mangue, considerada área de preservação ambiental, e atravessou 25 anos sendo levantado aos poucos e sem nenhum suporte técnico. Além disso, nesses 25 anos, nenhuma fiscalização foi feita no edifício ou houve qualquer assistência pelo poder público.

A falta de fiscalização e a corrupção se tornam tão agravantes e importantes para a queda das estruturas quanto a própria autoconstrução, e vão desde poucos profissionais para atender a demanda de obras irregulares até fraudes na expedição de alvarás, envolvendo construtoras e prefeituras.

Só para se ter uma ideia, a cidade de Florianópolis, capital de Santa Catarina, tem um grande problema com construções irregulares. No entanto, a prefeitura da cidade dispõe de apenas dez servidores para fiscalizar essas construções, e, infelizmente, o que se vê é o crescimento desordenado de habitações deficitárias em praticamente todos os bairros da cidade.  

O Brasil precisa urgente de políticas públicas de fiscalização e de projetos habitacionais eficientes e de baixo custo. Do contrário, as noticias de desabamentos serão cada vez mais constantes e inevitáveis.

Saiba mais sobre o assunto no vídeo do Engenheiro Civil e Especialista em Estruturas Felipe Rodrigues, aqui do Canal da Engenharia:

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